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Mastodon - Blood Mountain


O metal em excesso voltou: como prova principal veio "Blood Mountain" após a grande façanha de 2004, "Leviathan", que pegou "Moby Dick" de Herman Melville e repaginou-o em uma canção de marinheiros infernal dos mares profundos. A banda de Atlanta consiste de quatro caras que parecem mecânicos tatuados, mas soam como se usassem capas e cuspissem fogo. "Blood Mountain" transforma embromações de auto-ajuda sobre superar grandes obstáculos em uma jornada fascinante de ficção através de uma terra infestada de bestas ou feras, incluindo um ciclope ("Circle Cysquatch"), guerreiros do povo árvore ("Colony of Birchmen") e algum tipo de gigante adormecido. Por baixo de todo esse sangue e trovão medievais existem na verdade tonalidades transbordantes com riffs à la montanha russa ("Bladecatcher" merece uma indicação para o Air Guitar Hall of Fame), sensações de estar perdido em catacumbas ("Sleeping Giant") e traçantes ofuscantes de brilho estelar acústico ("Pendulous Skin"). Melodia interessa tanto quanto porradaria, e as traiçoeiras mudanças de tempo são conduzidas brilhantemente pelo baterista Brann Dailor, que transforma "Capillarian Crest" em uma estonteante perseguição através de uma nevasca. Sim, algumas vezes mais é melhor.
Brutal yet beautiful.

Meshuggah - Nothing


No reino do metal, poucas bandas são tão peculiares e técnicas quanto o Meshuggah. Esses suecos fazem música para descontrutivistas clinicamente doentes, coisa de louco mesmo. "Nothing", o quarto petardo deles, somente cimenta seus lugares como criadores do metal cósmico calculado. Podem chamar de Einstein metal se quiserem. O que ainda lhes dá um crédito extra é que eles são os únicos nesse "sub-sub gênero". Quando círculos de riffs bizarros, vocais de robóticos da morte, cromas neo-jazzísticos e composições musicais matemáticas são a arma principal, é fácil se colocar em um canto criativo. Para onde o Meshuggah poderia ir após a porrada de "Destroy Erase Improve" e logo após com o sufocante e violento "Chaosphere"? Bem, eles ficaram mais pesados ainda. Os guitarristas Marten Hagstrom e Fredrik Thordendal usaram guitarras de oito cordas para dar um grave extra para o que já era pesado, e umas pitadas de dissonâncias. O apropriadamente entitulado "Nothing" mostra arranjos mais esparsos, o tempo e a cadência colidem até que o som entre um buraco negro sonoro consumindo-se (por exemplo "Glints Collide" e a mais de sete minutos "Close Eye Visual"). Desse buraco negro, a luz rebate em "Nothing", o tema do album baseado no existencialismo e no trauma psíquico que causa na mente. O exercício cerebral continua, através de "Straws Pulled at Random", "Spasm" e a paisagem lunar arrepiante de "Obsidian", todas sendo anti melódicas, de ranger o dentes em regiões matemáticas opacas, importando um pouco da psicodelia do Tool com Death e até Gang of Four. "Nothing" dá um novo significado para a palavra pesado, empurrando o metal para as fronteiras da ciência abstrata. Para aqueles sortudos o suficiente para viajar no som do album, como toda boa arte, irá fazer cócegas em seus subconscientes conectando o interno (mente) e o externo (espaço). Novas fronteiras se abrem. Pena que poucas bandas arriscam tanto quanto eles.
Antidote for generic metal.


Gordian Knot - Gordian Knot


Projetos cheios de "fodões" geralmente adicionam quase nada, mas o auto-intitulado do Gordian Knot revelou-se um dos melhores albuns de rock progressivo dos últimos anos do segundo milênio. E isso graças ao fato de que Sean Malone tomou as rédeas, conduzindo o projeto para seu objetivo de fazer músicas instrumentais refinadamente guiadas pela guitarra. Malone tinha um retrospecto de metal progressivo, e também vários de seus convidados (Sean Reinert baterista do Cynic, Trey Gunn guitarrista do King Crimson, John Myung baixista do Dream Theater, além de Ron Jarzombek e Glenn Snelwar). E mesmo assim o album tem apenas um par de faixas que podem ser qualificadas como metal ("Rivers Dancing" e "Singularity"). O resto todo cai no estilo de guitarra de tipos como David Torn e Robert Fripp. "Galois" abre o set com um plano de fundo sedutor. "Code/Anticode" é o principal destaque do album, um inteligente rock progressivo com com uma sólida seção rítmica e uma cativante melodia modal. "Reflections" consegue fazer um ameaçador verso de metal e um refrão de violão clássico andarem de mãos dadas como dois namorados. "Srikara Tal" e "Redemption´s Way" trabalham como uma base de solo sobre um fundo de percussão levemente norte-africana. Elas parecem um pouco extensas, mas o trabalho de guitarras adornando-as vale a longa duração. O album finaliza com "Grace", uma delicada balada tocada no Chapman stick que dissolve-se em paisagens sonoras que leva os ouvintes de volta ao ponto de onde começaram. Se não fosse por uma duas faixas super extensas e auto-indulgentes, este album seria uma obra prima. Do jeito que é, ainda merece atenção de qualquer fã de guitarra.
Technical and beautiful music.

Death - The Sound of Perseverance


Que nome melhor para uma banda de metal? Especialmente uma concentrada tão fixamente no sopro final da vida? O massacre sonoro que caracterizou a carreira do homem principal Chuck Schuldiner (R.I.P.) é um dos mais celebrados no desenvolvimento do death metal como um subgênero do thrash. Death foi o papai desse estilo matador de guitarras, e qualquer um com mesmo um vago desejo de praticar o metal extremo, desde Carcass até Deicide, de Obituary a Cannibal Corpse, deverá confessar que a raquete do diabo (guitarra) de Schuldiner lhes influenciou.
Formado em 1987, Death iria abrir caminho por uma trilha que ninguém se imaginaria seguindo, death metal! Sim, eles foram os pais fundadores do death metal progressivo e "The Sound of Perseverance" seria a jóia da coroa, infelizmente este seria seu último lançamento.
Lançado em 1998, "The Sound of Perseverance" foi um dos primeiros espécimes desse subgênero. Este album também apresentou uma nova formação com Shannon Hamm na guitarra, Richard Christy na bateria e Scott Clendenin no baixo. Uma lição tratando-se de death metal virtuose (sim, virtuose mesmo). Sim, não tem o estilo neo clássico de tocar que também caracteriza a palavra virtuose, mas para um subgênero feito quase que inteiramente de vocais guturais, baterias massacrantes e riffs metralhadoras não é errado chamar "The Sound of Perseverance" de um album pioneiro nesse virtuosismo ao contrário da grande maioria dos albuns da época. Músicas como "Scavenger of Human Sorrow", "Spirit Crusher", "A Moment of Clarity" e "Flesh and the Power It Holds" irão mais do que provar meu ponto! "Scavenger of Human Sorrow" é uma superba abertura para um superbo album! Ouça as mudanças de tempo no meio da música que começa com uma linha de baixo bem jazzística (e sim! também não seria errado adicionar a palavra jazz!). O mesmo vai para a superba "Spirit Crusher"! Com uma introdução de baixo bem jazzística, "Spirit Crusher" soa mais como um número instrumental em seus primeiros segundos mas na realidade é outra coisa. O que é mais legal nessa música são as mudanças de tempo súbitas crescendo para o refrão principal. "Voice of the Soul" é um brilhante número instrumental e soa mais como se fosse o próprio requiem de Chuck Schuldiner, não estou blefando, ao passo que você vai escutando mais atentamente você também sentirá o mesmo. O album encerra com o cover de Judas Priest magnum opus "Pain Killer"! Nessa versão cover, Chuck Schuldiner está em sua melhor forma de trincar vidros tratando-se de vocais e guitarras (sem trocadilhos). O resto da banda nem precisa dizer nada, estronda!
"The Sound of Perseverance" foi o último lançamento oficial do Death. Que grande pena para uma super talentosa banda acabar sua carreira tão cedo! Mas, podemos nos consolar no fato de que o Death "morreu" após nos dar tamanho clássico que ninguém de nós pode discordar!
In Loving Memory of Chuck Schuldiner (1970-2001).

Tool - Ænima

Em seu terceiro album, Tool explora o território do rock progressivo previamente forjado por bandas como King Crimson. Entretanto, Tool é conceitualmente inovador em cada minuto de sua arte, o que lhes põe aparte da maioria das outras bandas. Não se engane, este não é um disco da coleção de seu pai. Musicalmente, a banda nunca soou tão bem como aqui. Longas passagens explanatórias são tocadas com incrível precisão, detalhes e clareza, complementando as partes mais curtas, abrasivas e agressivas do album. Não há aquele compromisso exagerado de nenhum membro da banda, somente cada um descobrindo a dinâmica de seu respectivo instrumento e levando a capacidade física ao limite. Tópicos como as filosofias de Bill Hicks (eloquentemente expostas no encarte), evolução e genética, e falso martírio irão voar sobre as cabeças dos ouvintes casuais. Mas aqueles ouvindo mais seriamente irão descobrir algo mais. Um catalizador lhes encorajando a descobrir um mundo em suas voltas ao qual eles poderiam estar cegos até então. Se essas não forem razões suficientes para ouvir "Ænima", então o ouvinte pode voltar para o fácil de engolir comercial.
Not your average metal album.